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sábado, 9 de setembro de 2017

Paz no meio da tempestade

O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.
(Clarice Lispector)


A “ansiedade” é com certeza um sentimento que define nosso mundo. Agendas abarrotadas, dias extremamente curtos, excesso de trabalho e encontros diários com a opressão. Não temos espaço em nossas vidas (ou em nossos dicionários) para palavras como serenidade e tranquilidade. Vivemos tempos de perturbação e conturbação, brilhantemente capitada na pintura de um velho artista: montanhas desoladas sendo severamente castigadas por uma imensa e assustadora tempestade.  

O interessante é que este quadro ganhou o prêmio principal em um concurso cuja temática era “PAZ”. Como?

Conta-se que certo príncipe, decidiu promover uma exposição de arte e dar um bom prêmio ao artista que melhor representasse a PAZ. Centenas de obras foram inscritas, e o que não faltou foram imagens de pássaros brancos, rios cristalinos, pôr do sol dourado, jardins floridos e arco-íris. Uma delas, porém, chamava a atenção por mostrar montanhas rústicas com pedras pontiagudas e ameaçadoras que não davam espaço para qualquer vegetação. O céu era negro com raios avermelhados cortando a escuridão. O cenário estava borrado pela tempestade torrencial que caia, e pelo vento percebido nos traços não lineares dos riscos acinzentados que traziam vida ao temporal... 

Todos ficaram indignados quando aquela obra foi escolhida como a grande vencedora, e foram embora murmurando, sem perceber um detalhe no canto inferior do quadro. Ali, na fenda da rocha, um pequeno pássaro, aconchegado em seu ninho, dormia sossegadamente.

Paz não significa necessariamente “ausência de conflitos”. Paz, em grego, é “Eirene”, que pode ser traduzida por tranquilidade de coração e mente baseada na convicção que está tudo bem entre a alma do homem e o seu criador. No hebraico, o significado básico de “Shalom” (palavra que correspondente para PAZ) é harmonia, plenitude, firmeza, bem-estar e êxito em todas as áreas da vida. Ou seja, a PAZ não é um sentimento e sim um estado de espírito. É uma atitude de serenidade, calma, força, tranquilidade e quietude de espírito, produzida pelo Espírito Santo em nós, mesmo nas adversidades e nas tribulações.

Uma paz diferenciada que não se esvai diante das tragédias, pois é forte o suficiente para nos guiar em calmaria mesmo em meio aos vendavais. Quando a tempestade aperta e o vento derruba até as águias que estão voando pelos céus, nos escondemos na fenda da ROCHA (que é Cristo), e descansamos em absoluta paz, afinal, dos seus filhinhos Deus cuida enquanto dormem (Salmos 4:8).

Podemos afirmar que a “paz” emanada de Cristo é uma garantia de estabilidade para a vida cristã. Mesmo nadando contra a correnteza, confrontando o mundo e seus sistemas corrompidos, devemos sempre estar em absoluto equilíbrio espiritual, sem deixarmos que nossos sentimentos e ações sejam inflados pelas rupturas catastróficas da moral humana. A “paz” é base que mantém solida nossa espiritualidade nos cenários mais tempestuosos. 

Em Romanos 12:9-21, o apóstolo Paulo lista uma série de virtudes que devem ser priorizadas na vida de todo cristão, tais como generosidade, hospitalidade, perseverança na oração, zelo não remisso, amor fraternal sem hipocrisia, apego ao bem, aborrecimento ao mal e fervor de espírito. Porém, duas das qualidades listadas neste texto exigem de nós um árduo exercício de devoção, fé e fidelidade: Alegre Esperança e Paciência na Tribulação (Romanos 12:12). 

Embora aqui tenhamos dois conceitos distintos, ambos estão completamente interligados, e juntos, ilustram o poder estabilizador da “Paz de Cristo”. A “ESPERANÇA” pode ser entendida como uma crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal, sendo requerida uma certa perseverança para se acreditar que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário. Para o cristão, a esperança deve estar focalizada em Cristo e embasada em fé. Paulo apresenta em Romanos 5:1-4 um mapa do que podemos chamar de “CAMINHO DA ESPERANÇA”: 

- Agora que fomos aceitos por Deus pela nossa fé nele, temos paz com ele por meio do nosso Senhor Jesus Cristo. Foi Cristo quem nos deu, por meio da nossa fé, esta vida na graça de Deus. E agora continuamos firmes nessa graça e nos alegramos na esperança de participar da glória de Deus. E também nos alegramos nos sofrimentos, pois sabemos que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência traz a aprovação de Deus, e essa aprovação cria a esperança. Essa esperança não nos deixa decepcionados, pois Deus derramou o seu amor no nosso coração, por meio do Espírito Santo, que ele nos deu”. 

Para que o cristão tenha uma esperança viva e a prova de decepções, a mesma deve ser cultivada em um coração cheio de amor e aprovado por Deus. Essa aprovação se dá mediante a paciência que demonstramos em meio aos sofrimentos. Em seu texto “O Casulo”, meu pai, Pr. Wilson Gomes, faz uma analogia entre o processo metamórfico da lagarta para borboleta e o crescimento espiritual que pode ser obtido das mais traumáticas experiências, e concluiu: 

- A dor é uma professora excelente, o sofrimento é disciplinador e as intempéries da vida são a academia da alma. No casulo, nos fortalecemos para enfrentar o mundo, e o conhecimento adquirido nesta escola é eterno e imutável.

No livro de Eclesiastes, o sábio rei Salomão estava revisitando seus antigos provérbios, quando elaborou alguns conceitos bem interessantes sobre as adversidades da vida. Um dos mais peculiares é sua preferência por “velórios” ao invés de“festas”, pois entendeu que o "luto" favorece a introspecção e o autoconhecimento, enquanto as "celebrações" podem nos dar uma utópica versão da realidade (Eclesiastes 7:2).  Em outras palavras, boas experiências podem ser retiradas das piores situações. Paulo vai muito além e ensina que nosso sofrimento deve nos trazer alegria.

Fechar este ciclo, e passar pelas tribulações com um sorriso nos lábios e esperança latente no coração e a prova cabal de nossa fé, que retumba vigorosa em meio aos cenários mais adversos, nos dando a certeza absoluta que Deus tem total controle de nossas vidas e navega ao nosso lado contra as correntezas do mais arredio mar.  Vivenciar esta verdade é experimentar da mais absoluta e genuína “paz”.

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