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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Entre lobos e cordeiros

O evangelho e a auto-escola,
é muita gente passando na prova teórica mas reprovando na prática.
(Anderson Alves)


O evangelho não é uma jornada para aventureiros. Curiosos até iniciam a caminhada, mas, dificilmente persistem no caminho. Há espinhos demais, pedras aos montes e poucos pontos de descanso. Pensar na vida cristã como um manancial de leite e mel, não passa de utopia barata implantada em mentes fragilizadas por um cristianismo genérico e malicioso que tem aberto seus braços sobre a igreja moderna.

Já perdi as contas de quantas vezes li os ensinamentos de Jesus, e ainda não encontrei uma única promessa de riqueza material ou mesas abarrotas de caviar e file mignon. Pelo contrário. O que Jesus prometia a seus seguidores, era uma vida repleta de vitórias sobre as tribulações do cotidiano. E basta somar dois mais dois, para entender que os cristãos mais vitoriosos, são exatamente os mais atribulados (João 16:3). Não se fazem omeletes sem que ovos sejam quebrados antes.

Quer seguir a Cristo? O Mestre nunca escondeu as condições. E nem camuflou suas palavras. Com Jesus, não existe letras miúdas no contrato. E, sequer, existe contrato. O discipulado é um vínculo de amor. Até, porque, somente amando demais, para aceitar um passeio de mãos dadas pelo vale da sombra da morte:

- Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos (Mateus 10:16)

Esta afirmação de Jesus, diz absolutamente tudo sobre o evangelho. Ele é abnegação, sacrifício e devoção. Atrai pedras, e não flores. É um chamariz para afrontas, calúnias e perseguições. Isto, porque os ensinamentos de Cristo contradizem as diretrizes do mundo. Põe o dedo na ferida. Fala o que ninguém quer ouvir. O evangelho genuíno incomoda uma sociedade dominada pelo hedonismo. Uma voz aguda quebrando o silêncio espiritual da humanidade. Logo, alguém vai tentar fazer calar a voz. Um evangelho que não confronta e nem gera confrontamentos, se prova conivente com as conveniências. Serve para quê? Sal sem sabor. Luz sem brilho. Ruínas sob a rocha.

Certa vez, meu pai foi chamado numa residência, onde uma jovem senhora estava possessa por demônios. Ele orou, e expulsou a entidade maligna. Porém, a mãe daquela moça, continuava aos prantos, mesmo após presenciar à libertação. E porquê? É que em determinado momento, enquanto ainda estava sobre a influência demoníaca, a filha olhou para a mãe e exclamou com grande ira: - Eu te odeio! Meu pai precisou conversar longamente com aquela mulher, lhe explicando que na verdade, aquelas palavras foram proferidas pelo “Inimigo”, que apenas usou a boca da filha. E que neste caso, ser “odiado” por Satanás, é na verdade, motivo de grande alegria. Vivemos para isto. Amigos de Deus são inimigos do mundo. Uma unica fonte não pode chorar água doce e salgada ao mesmo tempo. Luz e escuridão não coexistem. 

Agora, por mais incrível que pareça, tem muito cristão se esquecendo desta verdade. Meu coração está sangrando enquanto escrevo este parágrafo, pois me pego analisando o atual contexto eclesiástico, e percebendo que estamos empolgados com os aplausos que temos recebido de... Satanás. Que triste cenário é este. O Inimigo sentado numa poltrona aveludada em seu camarote infernal, assistindo esfuziante aos nossos entraves teológicos vazios. Entre uma pipoca e outra, ele solta demoradas gargalhadas, enquanto implodimos de dentro para fora. Estamos vislumbrados com o crescimento meteórico, e nos distraímos com projeções sobre quando seremos a maior “religião” do país, quando na verdade, a Igreja está sofrendo de uma "trombose venosa profunda", provocada por coágulos de religiosidade: Interesses escusos, ensinamentos unilaterais e apostasia generalizada. Ao invés de guerrearmos pelo Reino de Deus, nos digladiamos numa guerra civil sem tréguas. Brigamos entre nós, mas flertamos com o mundo. 

A grande parte dos pregadores modernos busca agradar a sociedade com seus sermões. Tudo para se evitar o confronto, o deslike ou a “fuga” dos seguidores. Sim, hoje temos ídolos evangélicos, canonizados por fãs e financiados por líderes dispostos a investir fortunas para manobrar as massas. Juntos e misturados. Se Jesus não tivesse ressuscitado, certamente estaria revirando-se na sepultura. Penso, que uma lágrima rola em seu rosto resplandecente, cada vez que o propósito de seu sacrifício é avacalhado por homens amantes de si mesmo.

Uma igreja que se camufla usando as cores (e as bandeiras) do mundo, não tem razão de ser. Uma denominação eclesiástica que faz da aprovação popular a base de sua doutrina, é apenas mais uma pinta no pescoço da girafa. A Igreja nasceu para nadar contra a correnteza. Fazer a diferença. Iluminar a escuridão. Abraçar leprosos. Apontar o dedo em riste contra os poderosos. O que, inevitavelmente, porá um alvo nas suas costas. O que esquecemos, é que se existe perseguição, então, tudo está bem. O contrário é que preocupa.

O que uma ovelha pode esperar da alcateia que a cerca? Abraços, afagos e beijinhos? Ou seria canino afiados, agressividade e muitas lacerações? Jesus foi perseguido e crucificado para que a semente do evangelho germinasse. E os cristãos que herdaram este legado, regaram com sangue a mesma plantação.

A Bíblia registra a morte de Tiago, ao fio da espada, e de Estevão, apedrejado por uma multidão enfurecida. Líderes morrendo pela causa que defendiam. E os apóstolos não fugiram a esta responsabilidade. Segundo a tradição, por pregar o evangelho, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo em Roma. André também foi crucificado em uma cruz no formato de X. Tiago foi decapitado por ordem de Herodes. Felipe provavelmente foi enforcado em Hierápolis. Bartolomeu teve sua pele retirada por um rei bárbaro. Tomé foi amarrado a uma cruz enquanto evangelizava seus algozes, morrendo lancetado na Índia. Mateus sofreu martírio por espada (ou punhais) na Etiópia. Tiago (o menor) foi lançado de cabeça do pináculo do tempo e depois, apedrejado. Judas Tadeu e Simão provavelmente foram vítimas de um linchamento público a machadadas motivado pelos sacerdotes pagãos da Pérsia. Paulo, o apóstolo dos gentios foi decapitado em Roma. Apenas João, morreu de morte natural após sobreviver ao exílio em Patmos.

Todos morreram em honra, cumprindo seu dever apostólico. Seus ensinamentos, influência, coragem e perseverança resultaram em milhões de conversões por toda a terra conhecida e se perpetuaram para a posteridade em quatro evangelhos, um livro com o registro de seus atos, vinte e uma cartas contendo conselhos e instruções para a Igreja em todas as eras, e finalmente, o Apocalipse, onde se encerram “TODA” a revelação de DEUS para igreja.

A Bíblia. O livro mais lido e vendido do mundo. E seus autores nunca viram um centavo de seus direitos autorais. Abnegação. Sacrifício. Devoção. Tudo o que está em falta no "mercado gospel". O evangelho não leva o homem para os palcos da vida. Ele nos aponta para o Calvário. E passa pela via dolorosa. O único meio de transformar morte em vida. Mesmo que para isso, seja preciso... morrer!

Será que a Igreja oportunista (e chantagista) de hoje, tem a determinação necessária para pagar este mesmo preço? Pregar a mesma mensagem? Ou está mais preocupada em ser ovacionada pelo mundo, enquanto internamente, queima numa pira de vaidades.

Que busquemos em Cristo a inspiração para sermos ovelhas, caminhando corajosamente por entre fileiras de lobos, compreendendo que as “dentadas” estão no escopo do discipulado. E que Deus nos livre deste maldito desejo que se disseminou entre os cristãos da atualidade: - Fazer parte da alcateia.

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