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domingo, 6 de agosto de 2017

O Paradoxo da Cruz

 Se o amor é autodoador, então inevitavelmente é vulnerável à dor.
(John Stott)


Pecado e morte sempre foram faces opostas de uma mesma moeda. Ação e reação. Efeito e causa. Crime e sentença. Ninguém escapa, esconde ou recusa-se a aceitar. É uma regra universal estabelecida desde a fundação do mundo. Não há negociata, barganha ou exceção. Toda alma que peca, está condenada. O salário do pecado é a morte (Ezequiel 18:20 / Romanos 6:16). 

Deus, porém, em sua infinita sabedoria, implantou um pequeno “bug” neste sistema. E esta foi a nossa sorte. Caso um inocente levasse sobre si a culpa por um pecado, o pecador era inocentado e continuaria vivo, enquanto outra pessoa morreria em seu lugar. A grande questão é: Quem? 

Haveria uma alma inocente disposta a morrer por alguém que fosse mal e pecador? 

Romanos 3:10 nos assegura que entre os homens, nunca existiu um único justo sequer. Logo, estaríamos condenados ao ciclo pernicioso de morte, a menos que um milagre acontecesse. E ele aconteceu!

Um inocente se compadeceu dos culpados.
O Verbo se fez carne e habitou entre nós.
E pelas suas pisaduras fomos sarados.

Mas, morrer, não é nada agradável. E conhecer detalhes tenebrosos da própria morte é uma maldição assustadora. Na noite de sua paixão, enquanto orava no Getsêmani, Jesus tomou ciência do grande preço que pagaria por nossos pecados. Como descrito por Davi no profético Salmo 22, na cruz do Calvário, Jesus não enfrentaria apenas uma dor física lacerante, como também seria aterrorizado pela angústia da solidão. Um Deus escarnecido por hordas de demônios. Um homem abandonado por seus amigos. Um corpo se derramando como água. Um coração se derretendo como cera.

Jesus foi transportado em espírito, e visitou as próximas horas de sua vida. Seriam as últimas. Não seriam fáceis. E angustiado, Cristo assistiu cena por cena de um pavoroso filme de horror, do qual, Ele era o protagonista.  

E o roteiro proposto, era mais ou menos assim...

Após ser preso por centenas de soldados romanos e condenado por uma corte judaica arbitrária, ele seria enviado para Pilatos, onde enfrentaria a mais sangrenta de suas flagelações. O flagelo seria executado por meio de um açoitamento, realizado com tiras de couros sobre as quais eram feitos nós nas pontas, ou fixado pequenos pedaços de ossos ou chumbo.

Os carrascos iniciariam o espancamento. E neste processo sua pele seria dilacerada e se romperia, fazendo o sangue espirrar. A cada golpe Jesus reagiria num sobressalto de dor. As forças iriam se esvair, o suor frio desceria pela face e a cabeça giraria. Ânsia. Vertigem.  Calafrios percorreriam o dorso das costas. Se não estivesse preso no alto pelos pulsos, certamente cairia numa poça de sangue. 

Com longos espinhos, os algozes teceriam uma espécie de capacete e o apli­cariam sobre sua cabeça. Os espinhos iriam penetrar seu couro cabeludo fazendo-o san­grar copiosamente. Mas, travariam. O diâmetro de sua cabeça seria um pouco maior. Para compensar o erro de cálculo, os soldados bateriam nos espinhos com um pedaço de madeira, rasgando a pele e arrancando tufos emaranhados de seu cabelo banhado de sangue.  

Pilatos, após exibir seu corpo dilacerado para a multidão, se acovardaria. Atendendo o clamor da turba ingrata e enfurecida, o oficial de Roma entregaria Jesus para ser crucificado.

Sobre seus ombros seria colocado o braço horizontal de uma cruz, pesando cerca de cinquenta quilos. A estaca vertical já estaria o esperando no calvário.

Je­sus iria caminhar com os pés descalços pelas ruas de terreno irregular cheio de pequenas pedras. Aproximadamente seiscentos metros, que pareceriam quilômetros. Fatigado pela dor e cansaço, Ele arrastaria um pé após outro, frequentemente caindo sobre os próprios joelhos. A esta altura, seus ombros já estariam cobertos de chagas, e quando caia por terra, a viga lhe escapava e escorregava pelo dorso. Uma lixa com o peso de dez pacotes de arroz.

Quando chegasse ao Calvário, os soldados iriam retirar suas vestes. Porém, sua túnica estaria intrinsicamente ligada nas chagas, e a fricção produziria uma dor atroz, pois cada fio do tecido já estaria aderido à carne viva. Com a retirada da túnica, as terminações nervosas se laceram. As chagas se rasgam. Os carrascos dão um puxão violento e o sangue começa a escorrer.

Então, Ele seria deitado de costas sobre o braço horizontal da cruz, e seus ferimentos, se encheriam de pedregulhos.  Os carrascos pegariam um longo prego pontiagudo e quadrado, apoiariam sobre seu pulso e com golpes de martelo, o plantariam e rebateriam sobre a madeira. 

Nesta hora, seu rosto se contrairia assustadoramente. O nervo mediano seria lesado. Uma dor aguda se difundiria pelos dedos e se espalharia até os ombros, atingindo o cérebro. A lesão dos grandes troncos nervosos quase o fariam perder a consciência, mas, Ele se manteria firme. Consciente. Sensível. O nervo estaria destruído só em parte, mantendo a sensibilidade. A lesão permaneceria em contato com o prego, causando uma dor interminável. 

Ao ser suspenso pela cruz, o nervo se esticaria como uma corda de violino, e a cada movimento ou solavanco, vibraria, despertando dores dilacerantes.

As pontas cortantes da grande coroa de espinhos pene­trariam no crânio. Por causa dela, seria impossível repousar a cabeça no madeiro. Seu crânio se penderia para frente, pressionando o pescoço e a cervical. Então, seus pés seriam pregados, provocando os mesmos efeitos aflitivos nos membros inferiores.

Três horas depois, ao meio dia, ele teria sede.  A esta altura, uma máscara de sangue já lhe cobria seu rosto. A garganta seca lhe queimava, mas, não conseguiria engolir nem mesmo a saliva. Os músculos dos seus braços se enrijeceriam em uma contração que iria se acentuando. Os deltoides, os bíceps esticados seriam levantados. Os dedos se curvariam. A respiração iria se fazendo cada vez mais curta. O ar entrando no corpo como um sibilo, e de lá, não conseguindo sair. Ele respiraria com o ápice dos pulmões. Sede de ar.  Nas próximas horas, ele se assemelharia a um asmático em plena crise. Seu rosto pálido se tornaria vermelho, e depois num violeta, até, enfim, entrar em estado cianótico. Uma pele azul e sem oxigenação. Ele seria envolvido pela asfixia. Os pulmões cheios de ar não podiam mais se esvaziar. 

A fronte estaria cheia de suor e os olhos saindo da órbita. Lentamente com um esforço sobre humano, Ele tomaria um ponto de apoio sobre o prego nos pés, esforçando-se em golpes, e se elevaria, aliviando a tração dos braços. Os mús­culos do tórax se distenderiam, a respiração tornar-se-ia mais ampla e profunda, os pulmões se esvaziariam e o rosto recuperaria a palidez inicial. Logo após, o corpo começaria a se afrouxar de novo e a asfixia recomeçaria. Cada vez que quisesse falar, deveria elevar-se, tendo como apoio o prego dos pés. Dor sobre dor.

As três da tarde, Ele já estaria há seis horas na cruz. A temperatura corporal diminuindo cada vez mais. Todas as suas dores exponenciadas. Sede desesperadora. Cãibras. Asfixia. O latejar dos nervos medianos lhe arrancariam um angustiante lamento. Ele se sentiria completamente sozinho. Nem mesmo os olhos de Deus estariam mais sobre Ele. Nenhum homem poderia suportar este último flagelo.

O lufar da morte. Uma gargalhada do inferno. A vergonha do mundo. Toneladas de pecados sobre um corpo moribundo. Solidão. Tela preta.

De sobressalto Jesus, retorna ao Jardim...

A angústia pelo sofrimento vindouro faz seu suor se transformar em gotas de sangue, um fenômeno raro que só acontece em condições excepcionais. Para provocá-lo, é preciso que o indivíduo se encontre em um estado de fraqueza física, acompanhado de abatimento moral, causado por violenta emoção e grande medo. Esta tensão provocou em Jesus o rompimento das finíssimas veias capilares. O sangue misturou-se ao suor e se concentrou na pele, escorrendo por todo o corpo.

Jesus estava em choque profundo. O medo afligia sua alma. Por um instante, Ele hesita. Não deseja passar por tanto sofrimento. Não seria justo que Ele, não tendo pecados, fosse castigado pelos pecados de todo o mundo. Então, Jesus pede ao Pai que mude os planos e não o faça beber daquele cálice amargo.

A fraqueza dura apenas um minuto. O dilema se esvai no soprar de uma brisa noturna. Jesus agarra-se a sua missão: -  Pai, seja feita a sua vontade e não a minha! Jesus escolhe a vontade de Deus.

Desde os primórdios do tempo, quando o homem traiu a confiança de seu Criador e cedeu a tentação da serpente, Deus tem se dedicado em tempo integral, buscando se reaproximar da humanidade. Do Gêneses ao Apocalipse, enxergamos o mover do Senhor em prol desta ambição sagrada. Os patriarcas, juízes, profetas, apóstolos, ministros, pastores, evangelistas e mestres, sempre atuaram como porta vozes de Deus na terra, anunciando sua palavra, que em resumo, nada mais é que um convite ao arrependimento, que por sua vez, é a chave que abre as portas dos céus para o homem.

Nada faz o coração de Deus pulsar tão forte quanto um pecador que se arrepende. O universo existe, para testemunhar este evento miraculoso. Deus não move uma única peça no tabuleiro da existência, sem que a motivação seja aproximar-se da humanidade e restaurar o homem para si. A encarnação do Filho do Homem entre nós, tinha como objetivo expiar os pecados da humanidade na cruz, reconciliando os pecadores e salvando todos os que haviam se perdido. Um inocente morrendo pelos pecadores. O sacrifício supremo. Tudo se resumia aquele momento. A redenção do homem só seria possível se Jesus aceitasse morrer afogado num oceano de dor.

No Jardim, Deus revela a seu filho tudo aquilo que Ele iria passar, se aceitasse a missão. E agora? Sim ou não? O paradoxo definitivo. Jesus se lembrou de nós, se compadeceu por nós, e por nós, Ele de bom grado, aceitou a cruz. E valeu a pena!

Os elementos clínicos deste texto são baseados nos escritos do médico francês Pierre Barbet, cirurgião-chefe do Hospital Saint Joseph em Paris por treze anos. Especializado em anatomia humana, ele estudou minuciosamente os efeitos físicos dos flagelos infligidos a Cristo, conforme relatado nos evangelhos. 

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