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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Coleções Descartáveis

Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.
(Honoré de Balzac)


Sou um colecionador compulsivo em tratamento permanente. Amo quinquilharias. Para mim, qualquer anotação deve ser arquivada. Me acho numa montanha de papeis e me perco em escrivaninhas vazias. E esta mania vem de muito tempo. Desde que me entendo por gente, gosto de manter por perto tudo que considero “colecionável”. Álbuns de figurinhas, cédulas antigas, moedas, selos, tazos, card´s, figuras de ação, revistas em quadrinho, latinhas, brinquedos seriados. Com a juventude, vieram os cd´s dos cantores e bandas favoritos, os livros dos autores prediletos e um gosto eclético pela sétima arte. Devo ter uns cinco mil filmes num arquivo de lógica pouco compreensível. São tantos objetos guardados, que por vezes, minha esposa me “pede gentilmente” para que jogue alguns itens fora.

E nestas décadas, muitas coisas foram para o limbo. Tesouros que se tornaram lixo. 

Os card´s de dinossauros que valiam uma vida. Lixo. 
O álbum de figurinhas com as “Maravilhas do Mundo”, preservado como relíquia. Lixo. 
Os bonequinhos pintados à mão da Turma do Arrepio, mantidos a sete chaves. Lixo.

Engraçado como algumas coisas tem valor inestimável durante uma fase da vida, para depois se tornarem frivolidades dispensáveis. Contínuo sendo um colecionador. Mas, meu gosto tem mudado com muita frequência. Objetos de paixão devotada se transferem para a galeria das “baboseiras esquecidas” com muita regularidade. 

Como pode mudança tão drástica? 

Simples. Abandonados aquilo que já não é importante. Mesmo não esquecendo, deixamos para trás e seguimos em frente. Alguns itens que consideramos vitais no hoje, amanhã se provam supérfluos e descartáveis.

A Bíblia tem um nome para estes hábitos sazonais: VAIDADE.

Quando pensamos em “vaidade”, logo nos vem a imagem de alguém trajando roupas caras, cabelo hidratado e maquiagem requintada. Porém, é preciso ir muito além da aparência. Vaidade é sinônimo de “vazio”, a definição suprema de tudo que é ilusório, vago, desnecessário e excessivo. São bagagens que carregamos, mesmo sabendo que nada do que está dentro dela, terá qualquer serventia prática no destino almejado.

Romances juvenis? Vaidade! 
Paixão por uma agremiação esportiva? Vaidade! 
Títulos eclesiásticos rebuscados? Vaidade! 
Popularidade em redes sociais? Vaidade! 
Coleções datadas? Vaidade! 

Não pecado. Vaidade. Desperdício de energia e tempo. Por alguns meses (ou anos), até achamos que nossa vida dependa destas coisas. Quem nunca chorou por uma decepção amorosa? E não sofreu com a derrota de seu time numa final de campeonato? Lutamos por posições privilegiadas e pela aprovação popular, porém, quando as temos, descobrimos que, de fato, nada de produtivo foi agregado. Vaidades. Coleções as quais nos dedicamos, e que um dia, serão arquivadas na letra “L”. Lixo.

E este não é um mal do homem moderno. A história está repleta de personagens que se dedicaram a coleções descartáveis. Alguns, até foram “soterrados” por elas. A vaidade está intrinsecamente ligada ao “excesso”, e tudo que é “demais”, deixa de ser bom. E aí sim, pode virar pecado.

Comer não é pecado. A glutonaria é. 
Beber não é pecado. A bebedice é. 
Amar não é pecado. A luxuria é.

Elementos que sozinhos são sinônimos de benção, quando acumulados em série, podem redundar em maldição. Inclusive, encontramos registros de alguns acervos perniciosos, nas páginas das sagradas escrituras. 

Vamos aos fatos...

Se existe alguma coisa aparentemente contraditória na Bíblia Sagrada, é o fato de Provérbios e Eclesiastes coexistirem. Provérbios nos revela uma visão otimista da vida, onde o homem bom irá prosperar e o mal encontrará a ruína. O esforço será sempre recompensado e todo o trabalho bem executado, certamente trará resultados positivos. Já Eclesiastes, parece desmentir tudo isso. Suas palavras são amargas e recheadas de desesperança: -  Por mais que se esforce, ao final de sua jornada, o que sobra para o homem honesto é apenas enfado e canseira; pois tudo na vida é efêmero e ilusório.

Mas, afinal, qual dos livros traz uma visão correta sobre a vida? Seria nossa jornada o caminho florido descrito em Provérbios ou a estrada obscura relatada em Eclesiastes? Ambos. Afinal, podemos fazer este caminho como quisermos.

Provérbios foi escrito por um jovem rei chamado Salomão. Sonhos, planos e projetos audaciosos povoavam a mente e coração do sábio monarca. Havia uma vida pela frente. O reino era próspero. Seu templo, absolutamente suntuoso. O palácio por ele governado deixava sem palavras quem o vi-a pela primeira vez. Seus servos mais humildes exalavam nobreza. As mulheres mais lindas da terra se acumulavam em seu harém. Os estábulos abrigavam caríssimos cavalos egípcios. Pavões ornamentavam os jardins. Carregamentos de ouro fluíam de Ofir para os cofres reais. A cada novo sucesso, Salomão, vislumbrava um amanhã ainda melhor. Um trabalho concluído com primor era apenas o início de um outro ainda mais ousado. Ele vivia de desafios vencidos. Tudo ia bem com o corte e seu rei. A vida era linda, bela e com promessas de melhorias contínuas.

A inspiração, portanto, era permanente. Ao todo, credita-se a ele, cerca de 1005 cânticos e mais de 3000 provérbios. Em seus escritos, Salomão dissertou sobre a vida, a morte, o comportamento humano, a sabedoria, a tolice, relacionamentos pessoais e interpessoais.  Em cada texto escrito, uma faceta de seu caráter era revelada. 

O erudito da lei. 
O psicólogo competente. 
O conselheiro matrimonial. 
O sociólogo especializado. 

Entre idas e vindas, conselhos, poemas e dissertações, inegavelmente, o Livro de Provérbios tem uma visão realisticamente positiva sobre ações e reações, enaltecendo a honestidade, a sabedoria, a fidelidade e o trabalho, todos eles apontados como  caminhos que conduzem a uma vida plena e feliz.

Porém, os gigantes também caem. E Salomão se deixou cair em armadilhas que ele mesmo construiu, desobedecendo duas normas a respeito dos reis:

1ª Norma – Deuteronômio 17:17
 O rei não deverá ter muitas mulheres, pois isso o levaria a abandonar a Deus. E nem ajuntar muita prata e ouro para si. 

2º Norma – Deuteronômio 7:3 / II Reis 11:12
Não contrair matrimônio com os filhos de nações pagãs.

E é exatamente aqui, que Salomão se mostra um colecionador inveterado. E ele tem predileção por dois itens em especial: Ouro e Mulheres. Ele excede exatamente onde deveria se conter. 

Para manter a paz em seu reinado, sela pactos de cooperação com reis pagãos. Como garantia que os acordos seriam cumpridos, sempre toma como esposa, uma princesa estrangeira. E assim, o rei vai colecionando matrimônios. Moabitas, amonitas, edonitas, sidôneas, egípcias e hetéias. Salomão redefiniu a poligamia, chegando ao total de setecentas esposas. Se não bastasse, ainda mantinha em seu harém trezentas amantes oficializadas. Mil mulheres!

Salomão também era um aficionado colecionador de tesouros. Periodicamente, recebia carregamentos gigantescos de ouro, prata, madeira de sândalo, pedras precisas, marfim, macacos e pavões. Para sustentar sua vida luxuosa, explorava sem pudor as províncias de Israel, sobretaxando o povo e cobrando impostos altíssimos das tribos que formavam a base de seu reinado. (I Reis 11:3, II Reis 3:1, 11:1-2, Eclesiastes 2.8). 

Riquezas e Mulheres. Coleções datadas. Vaidades.

Cada vez mais corroído pelas próprias ambições, o rei se tornou uma presa fácil. As mulheres estrangeiras lhe perverteram o coração, e ele, deixou de ser fiel para com o Senhor. Foi nessa ocasião que Salomão cometeu a loucura de construir santuários para os deuses de suas esposas, contrariando uma proibição da lei de Deus (I Reis 11.5-8, Êxodo 20.3). Além disso, passou a acompanhá-las em seus cultos pagãos e rituais profanos. Novas coleção ocuparam as estantes de sua alma. Apostasias. Angústias. Frustrações.

Tudo que Salomão tinha, era oriundo do próprio Deus. Sua sabedoria era uma dádiva celeste e as riquezas, um presente dos céus. O Senhor lhe concedeu de bom grado o que era necessário para que o reinado prosperasse em paz, justiça e verdade. Porém, o rei quis mais. E mais. 

Acabou soterrado no próprio querer. Construiu uma parede que o isolava de Deus. As mulheres perderam a beleza. O ouro perdeu o brilho. A vida perdeu o sentido. Uma vez que os alicerces do temor do Senhor foram abalados, Salomão entrou numa grande depressão, e literalmente, perdeu o prazer de viver.

Exatamente neste ponto de sua vida, nos deparamos com o texto melancólico do Livro de Eclesiastes. Nesta fase de inconsistência espiritual, os bens até então acumulados, deixaram de ser significativos. Casas, vinhas, jardins, pomares, açudes, escravos comprados e escravos nascidos em casa, rebanhos de vacas e ovelhas, prata, ouro, tesouros, cantores e cantoras, mulheres a granel, poderio e fama internacional, agora faziam parte de uma coleção sem propósito. Já não valia a pena revisitá-la. Tudo era vaidade. Supérfluo. Desnecessário.  Já não tinham mais frescor, sabor ou doçura. Tudo cinza. Insosso. Descartável.  

Salomão queixou-se da eterna mesmice. Suas palavras revelam o dessabor da rotina e a ausência de um propósito eterno em seu dia-a-dia. - O que aconteceu antes vai acontecer outra vez, o que foi feito antes será feito novamente, não há nada de novo neste mundo. Ele concluiu o que fatalmente, também concluiremos sobre os tesouros efêmeros que insistimos em preservar:

- Tudo é vaidade: a vaidade das possessões, a vaidade da sabedoria, a vaidade do trabalho, a vaidade das riquezas; a finitude da vida. Trabalhar e se esforçar para conseguir algo é como correr atrás do vento, atrás do nada. (Eclesiastes 1:9-14, 2:1-26; 5:8-6.12 , 17:26). 

Salomão ficou emocionalmente enfermo. Espiritualmente destruído. Moralmente arrasado. Coleções descartáveis que são guardadas no coração, tendem a apodrecer. E a podridão se espalha. A alma adoece.

A doença de Salomão era complexa, desgastante e prolongada. Ele experimentou uma crise existencial pavorosa, relacionada com a crise religiosa dela decorrente. Esse mal corroeu muitos anos de sua vida. Ele se tornou um velho ranzinza e rancoroso. Amargo e depreciativo.

Esta fase negra, porém, não é irreversível. Dá para aprender com ela. O lixo ainda está de boca aberta, esperando nossa coragem para executar certos descartes. Em sua velhice, Salomão teve um reencontro com seu Deus, recuperando assim, a integridade emocional. Ele releu cada um de seus provérbios, e se viu frente a frente com o espelho. Quem foi, e no que havia se tornado. Reconheceu que Deus é a essência da vida, e tudo o mais, é apenas vaidade. Excesso. Vazio. Ausência.

Ele reorganizou sua biblioteca. Meditou nos próprios escritos. Percebeu que a obra estava incompleta. Não havia o capítulo final. Por sorte, suas mãos tremulas e castigadas pelo tempo ainda tinham força para um último registro. Ele segurou a pena com o máximo de firmeza possível, e implorou a seus leitores para que não cometessem o mesmo erro. Insistiu para que as próximas gerações não gastassem a juventude com o que é efêmero, passageiro e ilusório: - Não façam coleções descartáveis, cuja importância, o tempo roubará.

E então, resumiu suas palavras e descreveu sua vida num único parágrafo. 
Tudo o que ele gostaria de ter feito e não fez. 
A única coleção que realmente vale a pena preservar. 
Temor, obediência e lealdade.

- Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem. Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal. (Eclesiastes 12:13-14)

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