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terça-feira, 14 de março de 2017

O General e o Profeta

O milagre é o filho predileto da fé.
(Johann Goethe)


A Síria aparece pela primeira vez na história bíblica, aliada com Hadadezer, rei de Zobá (II Samuel 8:5), numa batalha contra Israel. O resultado da guerra, foi a submissão da Síria ao reinado de Davi. Quando Salomão assumiu o trono, após uma série de revoltas populares, os reinos da Síria se tornaram independentes de Israel. A partir deste ponto, as duas nações tiveram repetidos confrontos militares, sendo cerco de Samaria, o mais famoso deles (I Reis 6 e 7). Alianças, traições, assassinatos e novas alianças, marcaram o atribulado vínculo entre os dois povos.

É do meio desta história de amor e ódio entre Israel e Síria (hoje, muito mais inclinada ao ódio) que emerge um milagre tão grandioso, que culminou na conversão de um general sírio ao Deus de Israel.

A cura de Naamã, registrada em II Reis 5:1-13, talvez seja uma das histórias mais conhecidas da Bíblia, podendo ser analisada, interpretada e recontada por diversos ângulos temáticos. O milagre, em si, é o foco central deste relato bíblico. Porém, é a “movimentação” de seus personagens que traz a grande riqueza literária e espiritual deste texto.

Um poderoso general em desespero, uma esposa zelosa e persistente, uma menina estrangeira fiel as suas origens, um profeta obstinado, um sábio conselheiro e um servo ganancioso. Cada ação gera uma reação. Cada decisão tomada pelo homem, motiva a ação imediata de Deus.

Muito mais que uma história sobre milagres, esta é uma história sobre as motivações que determinam quem somos de verdade, e como Deus vai agir em nossa vida.

O General

Naamã era um homem bom. Seus comandados o respeitavam e seu rei o admirava. Ele encontrou graças aos olhos do próprio Deus. Tanto, que o Senhor lhe favoreceu em uma importante batalha, providenciando grande livramento ao exército comandado por Naamã (II Reis 5:1). General de alta patente, integrante da cúpula política da nação, esposo afetuoso E cidadão de índole irrepreensível. Naamã teria uma vida perfeita, se não fosse sua terrível doença. Ele era leproso.

Hoje, a lepra é cientificamente chamada de “Hanseníase” ou “Doença de Hanser”, e sabe-se que na realidade, é uma infecção provocada pela bactéria “Mycobacterium Leprae”, atingindo sobretudo os nervos periféricos do organismo, tais como a pele, o nariz e os olhos. Embora ainda seja contagiosa, a ciência moderna consegue neutralizar os sintomas da lepra e extingui-la do organismo em até cinco anos, com tratamentos à base de dapsona e rifampicina. No período bíblico, porém, a lepra era a mais aterradora das enfermidades, pois, além do aspecto contagioso, ela ainda era incompreendida, e, portanto, incurável.

Apesar de suas riquezas, Naamã não tinha esperança de cura. Seria preciso um milagre, e isto, nem mesmo os melhores médicos do mundo poderiam fazer. Quando a escuridão da desesperança havia cegado os olhos do general, uma luz inesperada emergiu da sua cozinha. E é aí, que conhecemos as próximas personagens desta história.

A Serva

Durante uma incursão militar realizada em Israel, o exército sírio fez um grande número de prisioneiros, os quais, seriam usados como mão de obra escrava para as mais importantes famílias da Síria. Entre as pessoas capturadas, estava uma moça de Samaria, que foi trabalhar na casa de Naamã.

A Esposa

Quando uma pessoa sofre de uma enfermidade muito grave, toda sua família participa ativamente deste sofrimento. No caso de uma doença contagiosa, além dos distúrbios causados na rotina, temos também a triste realidade da parede invisível. Para sua esposa, Naamã estava sempre ali, mas, ela não podia tocá-lo. Perto e distante ao mesmo tempo.

Pouco sabemos sobre estas duas mulheres, apenas que uma era a devotada esposa de Naamã, e que a outra não passava de uma adolescente serviçal com origem israelita. Mas, existe aqui uma lição valiosa sobre nunca negar quem na verdade somos.

Não existem registros detalhados sobre a menina deportada, mas o texto evidencia que ela conhecia muito bem a sua história, sua gente e o local de sua origem. De um mero cantinho naquela grandiosa casa, ela podia acompanhar o sofrimento de seus senhores devido a doença de Naamã. Observava o vai e vem dos médicos com diagnósticos cada vez mais pessimistas e os momentos de fraqueza daquele que era um herói nacional.

Segundo a Bíblia, embora não fosse um servo do Deus Verdadeiro, Naamã era um homem correto, dotado de bondade e íntegro em seu caráter. Isso comoveu o coração daquela menina, que se sentia impelida a fazer algo em favor de seu patrão. E ela sabia como ajudar. Porém, sua posição de serva, não lhe proporcionava voz ativa naquela casa. E o fato de se manter calada, era uma garantia de não se envolver em problemas futuros.

E agora? Omitir-se e ficar na zona de conforto ou expor-se perigosamente para ajudar o próximo? Aquela menina escolheu o caminho que poderia lhe trazer consequências terríveis em caso de engodo, mas, que julgava ser a coisa correta a se fazer. Reportando-se a sua senhora, garantiu que em Samaria, havia um profeta que poderia curar seu marido.

A esposa de Naamã entra nesta história na exata posição descrita em Provérbios 14:1: “A mulher sábia edifica o seu lar”. Ela ouve com atenção as palavras da pequena criada, e se apressa em anunciar as boas novas. Embora suas esperanças tenham sido castigadas por decepções, e suas forças para lutar cada dia estejam mais escassas, aquela mulher decide agarrar-se a um novo fio de fé, encorajando seu marido a buscar ajuda no lugar mais improvável. A cidade que ele mesmo subjugou.

O que levou a esposa do general Naamã a confiar tão cegamente nas palavras de uma criança? O pragmatismo dirá que foi o desespero. Porém, nas entrelinhas, podemos encontrar uma motivação que se encaixa muito bem nesta história. TESTEMUNHO.

A mulher acreditou na menina, pois as palavras daquela pequena serva eram dignas de confiança. Sua postura como israelita, mesmo em uma terra estrangeira, não passava despercebida. Ao ponto da “primeira dama” de um dos maiores exércitos daquele tempo, ter certeza absoluta que a menina sabia exatamente o que estava falando. Falar com propriedade. Crer no que prega. Viver a própria mensagem. Esse é o segredo dos maiores ganhadores de alma. Às vezes, o que somos grita tão alto que nossas palavras são abafadas. É preciso viver de modo que o testemunho se torne a essência de nossa mensagem. Como já dizia Agostinho: - Pregue o Evangelho, se precisar use palavras.

Os dois reis

Estimulado por sua esposa, Naamã decidiu viajar até Samaria, afim de se consultar com o poderoso profeta de Israel. Formal como era, o general se apresentou ao seu rei Ben-Hadade. O monarca lhe concedeu uma carta de apresentação, que deveria ser entregue nas mãos do próprio rei israelita. E foi assim,  municiado com referências reais, escolta militar e muito dinheiro, que Naamã viajou rumo a Samaria.

Nesta época, Jorão era o rei de Israel, e foi ele quem recebeu a garbosa comitiva síria. Ao ler a carta escrita por Ben-Hadade, ficou muito irritado, já que o documento exigia a cura imediata de Naamã. Jorão rasgou suas vestes em sinal de protesto e esbravejava aos quatro ventos: - Por acaso, agora, sou Deus? Tenho o poder de matar ou de dar vida? Porque o rei da Síria me envia seu general, afim de que eu o cure?

Na verdade, Jorão estava apavorado. Seria aquela uma estratégia do inimigo? Estaria o rei da Síria procurando um argumento para declarar guerra? Que inversão de valores. Aqui temos um rei pagão que confiava plenamente no poder do Deus de Israel, e o rei de Israel, que não confiava no poder de seu Deus. 

O Profeta

Ao saber do desespero de Jorão, Elizeu enviou uma mensagem ao rei: - Porque você está rasgando suas vestes? - Deixe que o leproso venha até mim. E todos saberão que existe Deus em Israel! Que confiança! Elizeu fazia jus ao testemunho da pequena serva. Era, de fato, um homem de Deus. Mas, ou contrário do rei, que recebeu a comitiva com pompa e honras, o profeta sequer, fez questão de conhecer o “poderoso” general. Elizeu, por intermédio de seu servo, mandou um recado para Naamã, instruindo que ele mergulhasse por sete vezes no Rio Jordão.

Sabe aquela revolta que temos quanto um médico plantonista nos diagnostica sem ao menos levantar da cadeira? Imagine agora que você tenha viajado por centenas de quilômetros apenas por esta consulta. Era exatamente assim que Naamã estava-se sentindo.  - Mergulhar no Jordão? Ele estava preparado para os custos do milagre. Tinha dinheiro, joias e roupas finíssimas para barganhar por sua cura. Porém, ao invés de recebe-lo em seu “templo”, o poderoso profeta de Israel lhe atende a distância. E o manda mergulhar no Jordão. Se fosse para tomar banho de rio, Naamã poderia ter feito isso em seu próprio país. Lá, na capital Damasco, existiam os rios Abana e Farfar, cujas águas cristalinas ERAM mais convidativas para um mergulho, do que as águas barrentas do Jordão. 

Jordão? Para que isso? 

Se posso dar um mergulho em Bonito, não preciso me arriscar no Tiête!

Ah, o Jordão. Este caudaloso rio de águas escuras origina-se de quatro rios menores cujas cabeceiras estão no monte Hermon: Barreight, Hasbani, Ledam e Banias. Ele desce por declives acentuados, atravessa regiões desérticas, e salta por inúmeras cachoeiras. Em determinados pontos, suas águas arrastam enorme quantidade de terra. O rio vira pântano. O nome original deste rio é Iarden, que significa “declive” ou “o que desce”. Logo, este era o desafio proposto a Naamã. descer de sua posição altiva e se sujeitar a voz do Senhor. Mais do que curar seu corpo, Deus queria que Naamã experimentasse a cura de sua alma.

O Conselheiro

Quando Naamã se mostrou relutante a instrução do profeta, e decidiu voltar para a casa sem realizar a missão recomendada, foi um dos seus servos quem lhe deu o sábio conselho: 

-  Senhor, se já viemos até aqui, o que custa agora fazer conforme a palavra do profeta? São apenas mergulhos, e isso é fácil de fazer. Caso ele tivesse lhe pedido algo muito mais difícil, o Senhor não faria? 

Estas palavras fizeram o general refletir. O poderoso Naamã reavaliou suas convicções, e considerou justo o argumento apresentado. Neste ponto, ainda sem saber, Naamã começou a ser curado interiormente, deixando aflorar um sentimento de humildade que seria a chave do milagre.

Ao chegar nas margens do Jordão, Naamã se viu frente a frente com a batalha mais ferrenha de sua vida. A luta contra o próprio “eu”. Despindo-se de suas roupas militares, ele afundou nas águas lamacentas do rio. Nada aconteceu. Segunda vez. Nada. Terceira vez. Ainda leproso. Quarta vez. Leproso e enlameado. Quinta vez. Pele suja e escamosa. Sexta vez. Frustração e desespero. Faltava apenas um mergulho. Sétima vez. Naamã retornou a superfície. Pele de bebê. A lepra já não existia mais.

Curado, e muito agradecido, Naamã fez questão de voltar para a casa de Elizeu. Ele queria recompensar o profeta.  Desta vez, o homem de Deus o atendeu. O general sírio então, deu testemunho sobre o milagre do Jordão: -  Agora sei que não há Deus em nenhum outro lugar, senão em Israel. Por favor, aceita um presente de teu servoCalcula-se que os presentes oferecidos por Namaã ultrapassassem a quantia de R$ 150.000,00.

Elizeu se negou a receber qualquer pagamento pelo bem de Deus. Nem pela cura, e nem pelo perdão. Isso mesmo! Convencido que só o Deus de Israel era digno de adoração, Naamã não só pediu a Elizeu autorização para oferecer sacríficos ao Senhor em terras estrangeiras, como também clamou para que seus pecados fossem perdoados. Arrependimento e Adoração. Pode haver maiores indícios de uma completa mudança de vida? (II Reis 5:15-19).

O Servo

Elizeu só tinha uma coisa a dizer ao novo convertido: - Vai em paz!  Por outro lado, seu servo Geazi, obcecado com as riquezas oferecidas ao seu amo, deixou a cobiça falar mais alto e criou um estratagema para conseguir tomar possa daquelas preciosidades. Ele esperou que Naamã se afastasse o suficiente para não levantar suspeitas, e então, partiu atrás da comitiva síria. Ao alcançá-los, disse ao general Naamã que Elizeu tinha mudado de ideia e decidido aceitar os presentes. O general, prontamente entregou a ele todos os presentes que Elizeu tinha se negado a receber.

Assim, Geazi voltou para Samaria abarrotado de riquezas. Setenta quilos de prata conseguidas através da mentira, da desobediência e do engano. Quando entrou em casa, Elizeu lhe perguntou onde esteve e o que fazia. Embora, o servo tenha tentado se desvencilhar como novas mentiras, o Senhor já tinha revelado ao profeta todo o acontecido:

- Você acha que eu não estava com você em espírito quando o homem desceu da carruagem para encontrar-se com você? Este não era o momento de aceitar prata nem roupas, nem de cobiçar olivais, vinhas, ovelhas, bois, servos e servas. (II Reis 5:26).

Como consequência deste ato, a lepra de Naamã foi transferida para Geazi, resultando em seu isolamento social. A doença impossibilitou que ele continuasse servindo ao profeta, pondo fim a um ministério. Geazi poderia ter sido para Elizeu, o que Elizeu foi para Elias. Infelizmente, o servo ganancioso, na ânsia de ter ainda mais, perdeu até mesmo o que já tinha.

E talvez, esta seja a mais impressionante lição aprendida com a cura de Naamã. Milagre é uma benção na vida de quem o recebe com gratidão. Mas, se torna uma maldição sobre a vida de quem intenta obter lucro com ele. Quem deseja trocar seu ministério pela prata de Naamã, recebe como paga, apenas lepra do general.


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