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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O Sabor do Limão

Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.
(Lúcio Aneu Sêneca)


Meu pai, Pr. Wilson Gomes, se converteu ao evangelho na década de 80. Como era comum naquele tempo, aprendeu muito sobre a fé, e nada de teologia sistemática. Sem desmerecer a crença de ninguém, a grande verdade, é que, sobrava graça, mas faltava um "pouquinho" de conhecimento. Então, no afã do primeiro amor, meu querido pai queria comprovar o poder de sua incrível fé. Para isso, se ajoelhou embaixo de um limoeiro, e fervorosamente começou a orar: 

- Senhor, se tú és Deus em minha vida, quero que estes limões fiquem doces como laranjas.

Convicto do milagre, se levantou, apanhou um limão, o descascou, e se preparou para o doce sabor de uma laranja. E acreditem, ou não, para sua surpresa, aquele limão, estava azedo como sempre foi.

Teria Deus perdido o seu poder? Ou seria a fé de meu pai insuficiente para alcançar esta graça? Nem um, nem outro. A grande questão aqui, é que Deus, não pode negar a si mesmo (II Timóteo 2:13). 

O ser humano foi agraciado como uma dádiva chamada de “livre-arbítrio”, ou seja, a capacidade de tomar decisões por conta própria. Então, toda a nossa vida é norteada por estas escolhas. O “amanhã” que pertence a Deus, é um reflexo imediato do “hoje”, que pertence a cada um de nós. Assim, o dia que nos é dado a cada amanhecer, precisa ser aproveitado com sabedoria e responsabilidade. Como já disse o sábio Salomão, tudo o que a sua mão achar para fazer, faça-o com toda a sua força, pois não há trabalho, nem planejamento, nem conhecimento, nem sabedoria na sepultura, o lugar para onde você vai (Eclesiastes 9:10). 

Mas, o que tudo isto tem a ver com limões e laranjas? Simples. Por mais poderoso que Deus seja, Ele respeita o nosso livre-arbítrio. Por isso, o Senhor “jamais” influenciará no resultado de nossas colheitas. Colhe-se, o que planta. Se não houver plantio, nada se tem para colher.

É simplesmente impossível colher de onde não se plantou. Se nenhuma semente for lançada ao solo, nenhum fruto dali nascerá. Ninguém colherá pepinos em uma plantação de vagens, ou repolhos onde se plantou apenas cenouras. A lei da semeadura é simples e objetiva. É preciso plantar para colher, e só se colherá os frutos cujas sementes foram plantadas. Não há exceções para esta regra, e as Escrituras salientam a sublime  verdade: - Porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará (Gálatas 6:7).

A vida é um solo muito fértil, onde cada semente plantada nasce em proporções abundantes. Independentemente do que escolhermos plantar, ela sempre nos devolverá em generosidade, numa medida recalcada, sacudida e transbordante.  Uma avalanche de frutos oriundas de algumas sementes plantadas. E o Reino de Deus também é assim (Lucas 6:38).

Ao longo de nossa vida, o dia de amanhã será sempre uma incógnita, pois pouco (ou nada) podemos prever de nosso futuro (ou destino) enquanto vivente. O tempo que dedicamos na escolha das sementes que irão compor nosso alforje para a semeadura do “hoje”, é um raro momento onde se pode flertar com o próprio futuro. São as nossas decisões no presente que começam a lapidar a posteridade, nos dando a chance de optar por frutos doces ou amargos quando as eiras estiverem em flor. A colheita não reserva surpresas, pois apenas transforma em realidade os desejos externados na semeadura. Não se pode escolher os frutos que serão colhidos, pois o poder da diversidade reside apenas nas sementes.

Deus concedeu ao homem o privilégio do livre arbítrio, tornando-o um ser capaz de trilhar os próprios caminhos e seguir os anseios pessoais de sua alma. Mas, esta liberdade está recoberta de uma responsabilidade cujos efeitos perdurarão não apenas neste mundo, como ecoaram por toda a eternidade. Quando céus e terra deixarem de existir, estaremos exatamente no lugar que escolhermos em vida, e esta jornada começa quando a primeira semente toca o solo. Cada ação desencadeia uma reação. 

Faz parte da índole divina respeitar piamente o livro arbítrio do homem, e, portanto, ainda que almeje intensamente se relacionar com sua mais preciosa criação, Deus espera pacientemente que o ser humano dê o primeiro passo em sua direção. A mais valiosa lição aprendida com a parábola do pródigo, é que toda vez que um filho afastado toma a decisão de retornar para casa, haverá um pai de prontidão bem ali na porta, o aguardando de coração aberto e sorriso largo (Lucas 15:17-20). Mas, uma decisão precisa ser tomada e uma ação obrigatoriamente tem de ser posta em prática. Basta um passo consciente em direção a Deus para que Ele mova os céus e venha nos abraçar. Porém, neste ponto, a triste vida no chiqueiro já terá sido uma realidade, sendo a colheita direta de uma semeadura de ingratidão e desrespeito para com o Pai (Lucas 15:12-13).

Ter uma relação produtiva com Deus não passa por formulas mirabolantes e ideologias complexas. Pelo contrário, o andar com Deus exige apenas que as escolhas corretas sejam feitas, inda que os resultados imediatos destas resoluções pareçam desfavoráveis. O Evangelho não é um mar de rosas e nem imuniza o cristão contra tragédias, lágrimas e dores. Ele exige muita renúncia e autonegação e insere em nossa rotina cruzes pesadas, lobos agressivos e batalhas que nossos olhos se quer podem ver (Mateus 10:16 / Lucas 9:23). Aceitar esta oferta espiritual é simples, e além de indicar uma terra boa para o plantio, ainda encherá nossas mãos com sementes de excelência superior. Mas, a semeadura será longa, cansativa e sofrida, e logo, a grande questão a ser pesada na balança é, se estamos dispostos a nos entregar de corpo e alma a este plantio. Afinal, Deus não tem prazer em quem retrocede (Hebreus 10:38).

O Salmo 126 retrata muito bem a realidade da semeadura e seus resultados futuros. Os judeus haviam amargado sete décadas numa terra estrangeira, tudo porque fizeram escolhas ruins no passado, plantando sementes de idolatria e desobediência, que resultaram numa colheita amarga de muito choro e solidão. Porém, se não temos a opção de escolher os frutos da colheita atual, podemos optar por sementes diferenciadas para a próxima estação, e nas terras do exílio, o povo do Senhor vivenciou um avivamento espiritual forjado no fogo da dor. Ali, longes da pátria mãe, os judeus reacenderam sua esperança na chegada do Messias e voltaram a meditar nas escrituras como a muito tempo não faziam.

Enquanto comiam do fruto rançoso, plantavam sementes adocicadas, regadas com as próprias lágrimas. A semeadura realizada sob a égide dos caldeus, foi colhida em liberdade. Nos séculos seguintes, os judeus subiram os degraus do tempo cantando a felicidade de voltar para casa, e como o Senhor restaurou a sorte de Sião, transformando o pesadelo em um sonho muito bom e real. Os lábios que se cerraram na Babilônia, agora cantavam hinos de louvor. O povo que outrora serviu de escárnio das nações, agora era testemunha das grandes coisas que o Senhor podia fazer. Vale a pena esperar no Senhor e confiar em sua fidelidade, pois “os que semeiam em lágrimas, segarão com alegria”. Quem leva a preciosa semente andando e chorando, voltará sem dúvidas com alegria, trazendo consigo os seus frutos! 

Voltando aos anos 80, a decepção encontrada na acidez exacerbada daquele limão, ensinou uma lição ao meu pai. Deus não muda o sabor das frutas. Afinal, quem plantou a árvore, sabia o tipo de fruto que gostaria de colher. Para saborear uma doce laranja, ele teria que voltar no tempo, no dia do plantio, e ao invés de um limoeiro, trocar as sementes, e plantar uma laranjeira. Mas, nos levar ao passado para mudarmos o futuro, é algo que Deus também não vai fazer.

Então, que o sabor dos frutos de hoje, nos ensine a escolher melhor as sementes da colheita do amanhã. Depois do limoeiro plantado, não existe oração capaz de adocicar o sabor do limão.


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